O ônibus das 17 horas

Lafaiete    Conto vencedor do XVII Prêmio Cidade de Conselheiro Lafaiete – Concurso Literário Internacional – 2010.

Sento-me no banco mais confortável da rodoviária. De confortável não tem nada, duro e frio, mas minha bunda gorda e o calor intenso o transformam num assento agradável, tanto quanto qualquer outro, ainda assim, escolho sempre o mesmo.

Devidamente prostrado em meu assento, abro o jornal. Notícias novas leio quase nenhuma. Durante o dia, na minha barbearia, o rádio fala alto tudo que é novidade. Minha leitura consiste mais na checagem das informações do radialista do que qualquer outra coisa. Podem julgar-me homem frio, considerando minha indiferença diante de tanta notícia ruim; mas, na verdade, sei tudo de antemão! – Sorrio ao chegar a esta conclusão. Se alguém me observasse, pensaria que sou louco. Como poderia sorrir lendo o caderno de política?

Baixo os óculos e enxugo os olhos com a ponta do indicador e polegar. Tenho este hábito; tentaram me chamar de tira-remela, mas como não sou dado a brincadeiras, o apelido não pegou. Sou sério, sereno e – passo a mão pelos cabelos – careca, mas custo a me lembrar de que meus cabelos se foram, passo a mão por entre fios imaginários, tentando controlar sua rebeldia, mas foram rebeldes demais, rebeldes o suficiente para partirem todos! – Sorrio novamente, agora com o jornal fechado em meu colo.

Quem me conhece está acostumado com meus sorrisos solitários. Como todos na cidade me conhecem, não tenho porque escondê-los, ninguém vai achar que sou louco; talvez os mais jovens, mas estes também vivem rindo à toa! – Sorrio de novo.

– Rindo à toa, Leleco?

Olho para o velho conhecido de meu pai que insiste em me chamar pelo apelido de infância.

– Rindo para não chorar, seu Amilton. – Respondo dando tapinhas no jornal.

– Nem me fale. A situação não está nada boa. Como querem que se crie uma família, se não tem dinheiro que chegue para se dar de comer aos filhos?

– É verdade.

– E seu pai, como vai?

– Faleceu já há algum tempo.

– Mas, não é possível. E como que eu não soube disso?

– O senhor estava de viagem.

– E o que houve com ele? Não me diga que foi tiro ou acidente, pois morte pior não há: é vida roubada, é vida tirada de quem tinha ainda muito o quê viver.

– Foi cirrose. O senhor sabe que papai bebia um pouquinho além da conta.

– Meus pêsames. Seu pai foi um bom homem. Trabalhador e honesto, barbeiro dos bão, conhecido em toda a região. Até a barba do governador chegou a fazer!

Por incrível que pareça, é verdade. Bons anos atrás o governador visitou nossa cidade e, por indicação do prefeito, foi ter a barba feita pelas mãos e navalha de meu pai. Tem um belo quadro em minha barbearia, herdada de meu pai, com um retrato dele fazendo a barba do governador, e o prefeito em pé, ao lado. Tenho orgulho desta foto, e também de meu pai. Apesar de certos momentos vexatórios devido ao seu amor pela bebida, foi um bom homem e excelente pai.

– Sim, seu Amilton. Que Deus o tenha. Fico feliz por ele ter me ensinado a profissão. Quando quiser passe lá para fazer a barba. A primeira será por conta da casa.

– E você sabe manejar a navalha? – perguntou, sem esconder a surpresa.

– Não tão bem quanto meu pai, mas faço o possível. Vá lá para ver, o senhor não irá se arrepender.

Seu Amilton sorriu, e quem o conhece sabe como isso é raro.

– Vou sim, deixe só eu tomar um pouco de coragem.

Nem preciso dizer que até hoje não apareceu. Após a morte de meu pai muitos clientes passaram a fazer a barba em outro lugar. Alguns voltaram tempos depois, ao ouvir comentários de que eu estava quase tão bom quanto ele, mas a maioria não quis correr riscos nas mãos de um barbeiro novato: Medo! Sorrio, seu Amilton deve ter pensado que fora por seu comentário. Envergonhou-se ou arrependeu-se ou as duas coisas. Sei que mudou de postura e de assunto num piscar de olhos.

– Tem horas?

– Dez pra’s cinco. – respondo olhando para meu relógio de pulso.

– O ônibus das dezessete já vai chegar.

Seu Amilton olha ao redor, a pequena rodoviária quase vazia transforma qualquer espera em um suplício interminável. Suspirou.

– Enfim, vou conhecer meu neto.

A estória é conhecida na cidade. Um dos filhos de seu Amilton quis desistir da vida de agricultor. Pai e filho discutiram, o rapaz saiu de casa com a roupa do corpo e os documentos. Nesta mesma rodoviária pegou um ônibus e partiu. Levou mais de ano para dar notícia.

– Meu filho caçula telefonou. Disse que vem para casa mostrar o neto. Minha senhora não aguentou esperar.

Dona Rosita, típica dona de casa das antigas, chorava escondida a ausência do filho. Ao saber seu paradeiro, para surpresa de todos, pegou um ônibus e foi ao seu encontro.

– Não vejo a hora desse ônibus chegar, Leleco.

Não sei por que seu Amilton ainda me chama de Leleco, nem meus amigos de infância lembram-se deste apelido. Independentemente disso, a chegada do ônibus é de fato importante. Pai e filho se perdoaram e se desculparam por telefone, mas falta aquele olho no olho, aquele abraço ou aperto de mão; o primeiro contato que definirá como tudo será cicatrizado.

– Uma tarde dessas passo na barbearia. Dê lembranças a sua mãe.

Aceno com a cabeça. Minha mãe não está bem, mal consegue ouvir ou dizer algo. Não quero ter que explicar isso a seu Amilton, ele já tem seus problemas a resolver.

Dobro mais uma vez o jornal e ajeito os óculos. Observo seu Amilton caminhar até uma das plataformas. Sei que este ônibus costuma atrasar, mas não importa; seu Amilton aguardará o motorista estacionar, os passageiros desembarcarem e a bagagem ser retirada para educadamente perguntar sobre sua esposa, filho, nora e neto. O motorista responderá que não havia tais passageiros no ônibus, o velho dirá que não há de ser nada, apenas deve ter acontecido um imprevisto qualquer.

E aconteceu. Neste mesmo banco sentei-me há alguns anos. Com um jornal nas mãos tentava esquecer por um momento que meu pai agonizava no hospital. Perplexo, li que a família de seu Amilton morrera tragicamente num acidente com o ônibus que vinha da capital para nossa pequena cidade. Aqui as notícias correm, mas não permitiram que esta entrasse no quarto de hospital onde eu havia passado os últimos dias ao lado de meu pai.

Seu Amilton foi ao encontro de sua família. Reconhecimento de corpos. Corpos carbonizados. Foi demais para o velho amigo de meu pai. Enquanto este falecia segurando a mão de minha mãe, seu Amilton recusava-se a aceitar que aqueles eram seus familiares. Voltou para nossa cidade, para sua casa. Eu, novamente neste banco de rodoviária, li a nota de falecimento de meu pai e toda a desventura de seu Amilton, a qual culminou na execração pública por não ter comparecido ao enterro de seus entes queridos.

Com o tempo o povo o entendeu, eu o entendi imediatamente. A negação o manteve de pé. Não poderia acordar e trabalhar arduamente todos os dias, senão para buscar sua família na rodoviária às dezessete horas. Sua tragédia me ajudou a superar a morte de meu pai, pois o que houve com ele foi terrível comparado a minha natural perda. Não posso agradecê-lo. Talvez vir aqui diariamente, sentar-me e ter esse diálogo, seja uma forma de demonstrar gratidão.

Desta vez o ônibus chegou no horário, não é necessário muito tempo para seu Amilton cumprir seu ritual. Despede-se do motorista e vem até mim.

– Eles não estavam no ônibus, vou telefonar para meu filho para saber o que houve.

– Não há de ser nada, seu Amilton.

– Sim, não há de ser nada, Leleco. – respondeu e caminhou em direção à saída.

Depois de adulto, apenas seu Amilton e meu pai continuaram a me chamar de Leleco. Sorrio ao lembrar-me disso. Levanto-me, ajeito os óculos, dobro novamente o jornal e vou para casa.

 FIM

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