Viagem à Itália

 PREMIO_UFF_DE_LITERATURA_1347645188B Menção honrosa – 5o. Prêmio UFF de Literatura – 2011.

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– Mas não temos dinheiro para isso!

– Giovane, ela está bem idosa. Este pode ser seu último desejo.

– Mais um problema. Temos que pagar passagem para ela e um acompanhante.

– Isso sem contar alguma eventual despesa médica lá na Itália.

– Nem quero pensar nisso!

– Mário! Você também vai querer atrapalhar, é? Já está bem difícil convencer seu irmão.

– Mas ele está certo, Paola. Agora que o restaurante está indo bem…

– Mas, gente! É o desejo de nossa mamma!

– Eu sei, maninha. Eu sei. Você não imagina como é difícil para mim também.

– Temos que fazer este esforço!

– Esforço? É sacrifício!

Os três irmãos não perceberam a pequena Júlia, apesar de seu chamativo notebook cor de rosa embaixo do braço, passar entre eles e caminhar até o último quarto do corredor.

Nonna, você está dormindo?

– Oh, minha querida! Não, estou apenas descansando os olhos.

– É verdade que a senhora quer voltar para a Itália?

– Hum, então os adultos estão incomodando você com este assunto?

– Ah, não tem como não ouvir. Eles falam muito alto!

– É o sangue italiano. – a avó riu.

– Por que a senhora quer voltar para a Itália?

– Não é isso, meu amor. Seria apenas uma visita. Desde que eu e seu avô viemos para o Brasil, nunca mais vimos nossa cidade. Seu avô já se foi, e eu não gostaria de partir também sem realizar nossa vontade.

– Ah, então é simples. É só pegar um avião.

– Não é bem assim, querida. A viagem é longa e minha saúde não está lá essas coisas. Além disso, a passagem é bem cara. Não tenho mais parentes lá, teria que ficar em um hotel. Seu tio ou seu pai teria que ir comigo. Não é nem um pouco simples.

– Qual o nome da cidade, nonna?

A avó tirou um pedaço de papel amarelado de um móvel ao lado da cama.

– É este aqui, querida. Consegue ler?

Nonna, já tenho onze anos, né?

– É um nome italiano. Pensei que talvez tivesse alguma dificuldade.

Fez uma pausa e sorriu.

– Você é minha neta mais nova, mas é a mais esperta.

A garota sorriu de volta, abriu o notebook e o mostrou para a avó.

– Olha aqui, nonna,

Um globo terrestre surgiu na tela. A menina digitou o nome do papel amarelado. A cidade surgiu, vista de cima. Mais um clique. Pronto. Avó e neta caminhavam por ruas italianas.

– É aqui? – perguntou a jovem.

A nonna sentou-se com alguma dificuldade. Pegou seus óculos numa gaveta. Surpreendeu-se com o que viu.

Dio mio! É aí mesmo! Essa é a rua principal!

– É só a senhora me dizer pra que lado quer ir que vamos andando.

– Vai mais pra lá, onde tem aqueles prédios. Não tinha isso antes.

Navegaram, caminharam e voaram por bastante tempo:

– Foi aí que conheci o nonno, neste ristorante.

– Esta é a escola onde estudei.

– Nossa! É como estar lá! Que bom poder te mostrar minha cidade! Nunca pensei que poderia fazer isso! Você é um anjo, minha netinha!

– Olha! O nonno comprava vinho nesta venda! Está igualzinha antes.

La chiesa, digo, a igreja que eu ia com mia mamma quando era da sua idade.

Em alguns momentos a avó não pode conter as lágrimas. A neta a acompanhou nas andanças e nos olhos marejados por todo o tempo.

– Neste lugar era minha casa. Agora construíram essa coisa aí. É a vida. Um dia tudo acaba.

Abraçaram-se. A neta fechou o notebook, levantou-se e voltou para seu quarto com um nó na garganta. A avó deitou-se novamente, fechou os olhos, perdeu-se em seus pensamentos até as lágrimas secarem naturalmente.

Mamma, mamma? Está acordada?

– O que você acha, bastardo?

– Desculpa, mamma. É que preciso falar com você sobre sua viagem. Estava conversando com o Mario e a Paola. Não está muito fácil no restaurante…

– Cale a boca. Vocês ficam gritando na cozinha e quando consigo dormir, vem no meu quarto gritar no meu ouvido?

– Você ouviu nossa conversa, mamma?

A velha senhora não respondeu.

– Então, mamma. Sobre a viagem.

– Que viagem?

– Como assim que viagem? A da senhora para a Itália…

– Não fale besteira. Quero ficar aqui no meu canto, sossegada. Será que posso?

– Mas a senhora não quer visitar sua cidade natal, mamma?

– Já visitei.

– Quê? Como assim? Quando?

– A preguiçosa da sua mulher já fez a janta ou vou ter que me levantar daqui?

– Não, mamma. Ainda não, mas o que a senhora…

Giovanni! Vá logo dar um jeito no jantar e não me aborreça mais com este assunto.

– Sim, sim, mamma. Estou indo.

E lá se foi Giovane preparar um saboroso gnocchi e deixar seus irmãos tão confusos quanto ele.

FIM

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